quarta-feira, 10 de abril de 2013

As obras que fazem a crítica do regime soviético não faltam por toda parte. Mas é certo que, entre elas, as mais interessantes são as que emanam dos democratas e dos socialistas, isto é, os antigos comunistas. Ora, parece que as obras desta última categoria se tornaram sempre mais numerosas. Os Anais têm dado conta dos livros de Sir Walter Smith, secretário-geral da C.G.T. Britânica, a de André Smith, operário comunista americano, que foi estabelecer-se na Rússia, onde acreditava encontrar enfim o paraíso operário e que a abandonou ao cabo de três anos, desiludido. Temos hoje em mãos o testemunho de um intelectual do mesmo país, Eugénio Lyons que viveu seis anos no país dos Sovietes. Foi de 1928 a 1934 o correspondente em Moscou da “United Press”, uma das grandes agências de informações dos Estados Unidos. Também ele era, senão um comunista militante, pelo menos um comunista fervoroso. Nascido na East Lide, bairro pobre de Nova Iorque, era como nos explica ele mesmo, socialista por predestinação. Para a gente da sua classe, a revolução constituíra um negócio que tocava aos seus interesses imediatos. O seu ódio às desigualdades sociais, alimentava-o em um ressentimento todo pessoal. Guardava sempre uma certa desconfiança para os “convertidos”, vindos ao socialismo da classe burguesa. Sangrando-se nas quatro veias, os pais do jovem Lyons conseguiram dar-lhe uma educação universitária. Ele mesmo trabalhava, fora das horas do curso, para ganhar algum dinheiro, segundo o costume espalhado nas universidades americanas. Fizera estudos de direito, mas sentia-se atraído pela literatura e pelo jornalismo. Via nisso um meio de ajudar a luta de classe. Começou desde logo a escrever na imprensa operária. No Outono de 1920,estava na Itália, onde os operários comunistas acabavam de ocupar as usinas. Preso, um comissario de polícia patronal teve piedade da sua mocidade – magro e subalimentado aos 22 anos, parecia ter 18 – e fê-lo conduzir bem escoltado para a fronteira Francesa, aconselhando-o a seguir imediatamente para o seu país e a casar-se com a interessante mocinha de quem trazia a fotografia. Foi, de resto, o que ele fez, mas não abandonou a luta social. Ao contrário, lançou-se nela com mais paixão do que nunca. Tomou parte activa no processo Sacco-Vanzetti, e, depois da execução dos dois italianos, publicou sobre a vida deles um livro que teve grande sucesso. Abraçou completamente a causa comunista sem jamais entrar, todavia, no partido. Durante cinco anos, até a sua partida para Moscou, trabalhou para a imprensa soviética. Dirigiu, depois, a “Soviet Rússia Pictorial”, a primeira revista ilustrada de propaganda soviética nos Estados Unidos; depois entrou na Agência Tass, agência oficial do governo russo. Em 1928, o seu director, que conhecia há muito tempo o desejo do jovem jornalista de ir á Rússia, o recomendou ao director da “United Press”, o qual andava á procura de um correspondente para enviar a Moscou. Tudo isso para mostrar que Eugénio Lyons era um marxista fervoroso e convencido. Também ele, como o seu compatriota Smith, via na Rússia dos Sovietes a esperança do mundo, o modelo do Estado do futuro. Não se poderia desprezar testemunha mais favoravelmente prevenida, mais pronta a fechar os olhos sobre certos defeitos inevitáveis em um regime em plena edificação. Ele mesmo insiste: pessoalmente não tem que se queixar dos Sovietes. Levava em Moscou, como correspondente estrangeiro simpatizante, uma vida bem agradável, senhorial mesmo em comparação com a miséria e as privações das populações autóctones. Logo que no começo de 1931 se espalhou o boato da morte de Stalin, Lyons teve o privilégio de ser designado para uma “intervieu” desmentido do ditador, a primeira que concedeu a um jornalista estrangeiro depois da sua ascensão ao poder absoluto. Vê-se, pois, que Lyons é uma personalidade que exerceu na Rússia um papel quase oficioso. Ora, o livro que ele acaba de publicar, grosso volume de 650 páginas, mas que se lê de um fôlego, é um dos requisitório mais esmagadores que nos têm sido dados ler sobre a ditadura Estalinista. Adquiriu ele um acréscimo de actualidade pelo facto de consagrar vários capítulos aos famosos processos monstros organizados regularmente a partir de 1928 pelas autoridades soviéticas, para o fim ridente de entreter o entusiasmo enfraquecido do povo. É possível que tenham sido esses processos que hajam originado a desilusão experimentada por Lyon durante a sua estada na Rússia, desilusão que, nos últimos meses, se transformaria em uma oposição declarada ao regime staliniano. Tinha-se habituado na América às tradições da justiça democrática. Na América, a justiça, por mais claudicante que pareça por vezes em suas decisões, goza ao menos do “fair play”, dando ao acusado um certo número de “chances”. Na Rússia, achava-se em presença da justiça revolucionária de olhos rebrilhantes, brandindo o gládio, cujo fim não é a equidade, mas a vingança. Era a mesma justiça revolucionária que alimentava a guilhotina sob o Terror francês. Chegando a Moscou em Fevereiro de 1928, Lyons pôde assistir, desde o mês de maio, á primeira dessas jornadas judiciárias. Desenrolou-se na mesma Casa dos Sindicatos, o antigo Club da Nobreza, onde deviam realizar-se todos os processos que se seguiram. O presidente do Tribunal era Vichinsky, que temos visto como Procurador-Geral no processo dos trotzkystas da direita. Era Krylenko quem desempenhava as funções de procurador. Durante as seis penosas semanas em que durou o processo, Krylenko veio às audiências em trajo de sport: calças de montar a cavalo, perneiras, roupa de caça, costume que lhe valeu, da parte dos correspondentes estrangeiros, o apelido de “caçador de homens”. Esse processo, em que foram julgados cinquenta russos e três alemães, engenheiros e técnicos das hulheiras de Shokhty, na bacia de Donetz, acusados de sabotagem, viram-se já muitas cenas degradantes, que deviam repetir-se no decorrer dos processos seguintes. Os acusados, aniquilados nos seus bancos, eram pobres trapos humanos. A maior parte fez “confissões” durante os debates; de modo que estavam condenados por antecipação. Entretanto, alguns, em um supremo sobressalto, procuram escapar ao castigo inevitável. Por exemplo, o acusado Bebenko, que havia assinado uma “confissão” na prisão, ousou desmenti-la perante o tribunal: É um tecido de mentiras. Eu sabia apenas que assinava. Era recoberto de ameaças: assinei. Depois antes do processo quis retractar-me. Mas… mas… Quer dizer que foi intimidado, ameaçado? Pergunta Krylenko com sua voz terrivelmente doce. Bebenko lançou-lhe um olhar de terror e baixou a cabeça. Não, murmurou. Apanhou. Outra cena horrível foi provocada pela audiência do acusado Skorutto. Skorutto era daqueles que tinham negado com obstinação. Achava-se na Alemanha quando se procedeu á arrestação dos primeiros “sabotteurs”. Não tinha hesitado em entrar imediatamente na Rússia. Isso não evitara que fosse preso e arrestado também. Uma tarde, no decurso do processo, não estava mais no banco dos acusados. Declarou-se que estava doente. Sem embargo, o outro dia lá estava de novo, pálido e defeito. Aproximou-se do microfone, pois todos os processos eram radiodifundidos, e com uma voz tremula, anunciou que tinha uma importante declaração a fazer. Na véspera assinei uma declaração em que reconheci a minha culpabilidade, assim como a dos meus co-inculpados. Um grito lancinante fez sobressaltar a assistência: Kolia! Meu querido! Não mintas, eu te suplico. Sabes bem que estás inocente. Era a mulher do acusado. Skorutto calou-se de repente, como que fulminado. Depois caiu sobre a cadeira, soluçando em voz alta e batendo no peito. Imediatamente Vichinsky suspendeu a sessão. Na “represe”, Skorutto voltou á sua primeira declaração e proclamou sua inocência. Meu Deus! Não se encontrará ninguém para compreender? Eu não dormia há mais de oito dias. Tinha tomado drogas. Assinei uma confissão. Ela, porém, não é verdadeira. Não cometi os actos de que me acusam. Entretanto, ao outro dia, veio ele de novo ao microfone e desmentiu a sua retractação da véspera: Eu estava perturbado pelos gritos de minha mulher. Sou culpado. Esse processo é velho de 10 anos. Entretanto aí se encontram já todos os traços típicos do processo dos trotzkystas da direita. Mesmas confissões seguidas de retractações, que vêm de novo anular novas confissões. Em 1933 efectuou-se o processo de seis engenheiros ingleses da “Metropolitan Vickers”. Foi dirigido pelo presidente Ulrich, o mesmo que presidiu os debates que acabavam de terminar pela condenação dos 21 acusados de Março de 1938. Eis a descrição que dele fez mister Lyons: A Corte era presidida pelo camarada Ulrich. Eu o tinha visto, o ano precedente, insultar com o seu desprezo e os seus sarcasmos um pobre diabo meio idiota, Judas Stern, que ia condenar á morte por haver atirado sobre um carro da Embaixada da Alemanha. Os deuses tinham modelado, sobre o rosto redondo de Ulrich, uma máscara de jovial e árida crueldade. Uns trejeitos de brutalidade sarcástica torciam continuadamente os seus traços vermelhos e luzidios. Os músculos da sua boca pareciam incapazes de formar alguma palavra justa. Esta face de melão dominando o processo, suando a mais não poder, era uma caricatura da justiça russa. Os ritos de Ulrich tinham substituído os de Krylenko. Eram, em um juiz, mais repugnante ainda do que os do Procurador-Geral. No decurso desse processo, pôde-se formar a ideia da diferença de atitudes entre os acusados britânicos e os seus co-acusados russos. Enquanto esses eram de todo ponto iguais a trapos humanos que se viam nos debates precedentes, os ingleses negavam veementemente, enfrentando os seus acusadores. Segundo Mr. Lyons, os fatos verdadeiros não deviam ser avocados ao processo. A fraqueza das cargas apresentadas pela acusação era patente. Ninguém acreditava nelas. Sem embargo, os engenheiros ingleses foram condenados, e o seu governo não protestou seriamente contra essa condenação. Lyons lembra que, muitas vezes, nos processos políticos, aceita-se deixar condenar por fatos de que se está inocente, a fim de ocultar o mais grave. Tal é, pelo menos, a impressão que tem deixado esse misterioso negócio. Lyons atem-se, referentemente á fome que reinou em 1932-1933, quando da luta pela colectivização das terras, a defeitos assombrosos. Cita, por exemplo, cidades inteiras da região de Kouban, cujos habitantes foram deportados para a Sibéria. Si estes fatos são conhecidos hoje, um pouco a Mr. Lyons é que o devemos. Foi ele o primeiro a revelá-los nos seus despachos. O Deus de Abraão diz ele, quando a sua cólera caiu sobre Sodoma e Gomorra, ao menos poupou Loth. Mais implacáveis, os deuses do Kremlin não poupam ninguém: nem crianças, nem mulheres, nem velhos. É o que se vê nos jornais de Rostow regozijados. Um correspondente estrangeiro, que tinha lido esses jornais, mas que tinha recebido ordens de atrair as boas graças das autoridades soviéticas, mandou recortes desses jornais para Lyons. Ora, os representantes da imprensa estrangeira tinham conseguido obter da censura o direito de enviar às suas agendas sem o “visto”, ao menos, o que aparecia nos jornais soviéticos. Foi assim que Lyons pôde espalhar pelo mundo a notícia das deportações em massa. Em passando, Lyons julga muito severamente os meios intelectuais e burgueses dos Estados Unidos, onde existe quem se extasie sobre a Rússia soviética. Aqui, faz-se lembrar a sátira que Sinclair Lewis fez, nesses meios mesmo, no seu romance “Os pais pródigos”. A divisa dessa gente poderia ser: “Abaixo nós mesmos!” Não duvidem eles de que, si, ao invés de norte-americanos, tivessem sido russos, há muito tempo estaríamos na sua pátria intelectual completamente esmagados. Certos dentre eles seriam até mesmo liquidados á primeira vista, tanto os russos pressentem os caracteres típicos do burguês. Lyons termina o seu importante relatório documentário por uma crítica moral serrada sobre a ditadura bolchevista. Publicando o seu livro, quis prestar serviços ao seu país. Os comunistas americanos, escreve ele, não se dão conta, tendo como os comunistas alemães antes de Hitler (e poderíamos ajuntar: como os comunistas franceses) de que os bolchevistas propagam um modo de pensar, um desprezo da vida humana, um desdém da verdade, uma glorificação de força brutal, que são essencialmente fascistas, totalitários. Mr. Lyons entrega-se a um verdadeiro “mea-culpa”. Também ele adorou a violência. Estava pronto a suprimir as classes, a sacrificar milhões de homens, a aceitar ditadores, para a vitória da causa. Mas os seis anos vividos na Rússia lhe ensinaram que todo movimento visando uma mudança económica é sem valor e mesmo perigoso si não leva em conta o respeito devido á vida humana, á liberdade e á justiça. São as mesmas massas que se pretendem salvar que pagam as custas da experiência… Encontrei, exclama ele, a coragem de declarar que tenho o respeito á verdade e o horror a essa vivissecção praticada “para o seu próprio bem”, pretende-se, sobre os seres humanos.